COMENTANDO O LIVRO: O SENHOR COMO O PÚBLICO ÚNICO EM NOSSA ARTE

Statue of David
Foto por: Mateus Campos Felipe em Unsplash 

Bem, esta não é uma resenha ou até mesmo o resumo do livro A Arte e a Bíblia que, até agora, está a me surpreender. Comentando o Livro é uma tag criada para compartilhar as minhas impressões e pensamentos sobre algum capítulo ou trecho do livro em particular. A Arte e a Bíblia foi minha primeira aquisição e contato com o pensamento de Francis Schaeffer, muito mencionado por pastores e teólogos protestantes. Comprei em um momento de particular crise existencial, sobre como a arte e o cristianismo poderiam ter lugar em minha vida. Como eu poderia glorificar ao Senhor através da escrita, esta habilidade que sempre cultivei com tanto amor ao longo dos meus poucos ano de vida. 

Entretanto, não venho aqui me prolongar em explicações gerais do livro (embora possa fazê-lo em outro momento). Venho compartilhar com vocês um trecho em especial, que me tocou profundamente e trazer algumas reflexões a respeito. 

A primeira parte do livro A Arte e a Bíblia se preocupa em conciliar as formas de arte com a própria Bíblia, em um esforço para mostrar que ela está sobre a autoridade de Deus, sobre o senhorio de Cristo: a arte é submissa a ele. Sendo assim, em todas as vezes que a arte é citada, ela aponta em beleza e grandiosidade para o grande e supremo Criador. Muitas vezes ela não tem função alguma a não ser ser bela. E isso é uma forma de mostrar que Deus se agrada da beleza. 

Depois, Francis continua fazendo essa exposição, mas agora com cada tipo de arte específica: poesia, música, teatro e dança. Aqui, vamos somente nos manter na poesia. Schaeffer usa Davi como um grande exemplo. Schaeffer diz que na Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento, existe um salmo que não está em nossa Bíblia. Discute-se a respeito dele, se foi ou não escrito por Davi, embora, Francis venha a dizer, pareça com seu estilo. Ele continua dizendo que não há obrigatoriedade que todos os salmos escritos por Davi sejam inspirados por Deus. Este, por exemplo, não foi inspirado e, por isso, não está na Bíblia. Vale ressaltar que "nem toda arte é Deus falando como uma musa inspiradora por meio de um artista. Em vez disso, é a natureza humana que cria". Sendo assim, podemos considerar esse salmo, uma poesia escrita por Davi, simplesmente como poesia:

Eu era pequeno entre meus irmãos
E o mais jovem na casa de meu pai. 
Cuidada das ovelhas de meu pai.
Minhas mãos formaram um instrumento musical
E meus dedos tocavam o saltério.
E quem dirá ao meu Senhor? 
O próprio Senhor, ele mesmo ouve.
Ele enviou o seu anjo
E me tirou das ovelhas de meu pai.
E ele me ungiu com o olho de sua unção.
Meus irmãos eram belos e altos,
Mas o Senhor não teve prazer neles.
Eu saí ao encontro do filisteu
E ele me amaldiçoou com seus ídolos.
Mas eu desembainhei sua espada e o decapitei
E removi o opróbrio dos filhos de Israel. 

No início, vemos que Davi era o pequeno que cuidava das ovelhas de seu pai. Ele também era o artista, o artesão, que formava um instrumento musical e que posteriormente usaria esses dons para confeccionar instrumentos a fim de serem usados na adoração no templo. A vida de Davi como artista estava permeada pelo esforço, seja ele de formar um instrumental musical, de afiná-lo, de tocá-lo, ou de compor uma poesia. São verbos como esses que nos mostram a apreciação de Davi também pelo processo e não somente pelo produto. Schaeffer vai dizer que "Davi fazia todas estas coisas como um exercício espiritual para a glória de Deus". 

Mas não paramos por aí. Porque Davi não somente conferia valor ao processo de criação ao descrevê-lo, mas também oferecia ao produto um significado que vai além do prazer que a arte pode nos oferecer. 

Ouço dizer que a maioria dos artistas trabalha para, um dia, serem reconhecidos. Para que o seu trabalho venha a ser apreciado e elogiado. E é por isso que muitos deles se autossabotam, seja por nunca apresentar seu trabalho para alguém (aquela velha desculpa do "ainda não está pronto"), seja por somente planejar, mas nunca sair definitivamente do papel. Entretanto, sabemos que existe uma enorme possibilidade de tudo o que fizermos nunca ser reconhecido ao nível que tanto desejamos. E, como então, não cair na insatisfação e no desgosto? 

Schaeffer também vai fazer uma pergunta: "como a arte pode ser suficientemente significativa?". Ora, se levarmos em consideração os parâmetros humanos, isto nunca chegará a um nível satisfatoriamente pleno. "Contudo, ela pode ser oferecida a Deus", termina Francis. 

Quando Davi diz "E quem dirá ao meu Senhor?", é como se ele perguntasse: "e quem dirá a Deus que eu formei um instrumento musical? Que eu toquei o saltério?". A resposta vem logo em seguida: "O próprio Senhor, ele mesmo ouve"! Toda ânsia por reconhecimento é plenamente satisfeita aqui, pois mesmo não existindo alguém que veja e reconheça nosso trabalho, o próprio Senhor o vê. O próprio Senhor vê a nossa arte! E que público é este! O Criador supremo, o Rei dos Reis, o Senhor soberano sobre todas as coisas — ele vê. Ele conhece. Ele sabe. Viver diante de Deus também implica em produzir arte diante de Deus! Suas poesias, suas pinturas, suas músicas, suas danças e seu teatro — Deus vê todas essas coisas. Ele vê tanto o processo quanto o produto. Nenhuma das partes está fora de seu senhorio.

O fato de Deus ser nosso público e nosso júri primeiramente nos enche de satisfação, pois a quem mais poderoso e realmente importante poderíamos apresentar nossa arte a não ser Deus? Ela também revigora nossas forças, pois todo o empenho que gastamos para fazer o melhor não é em vão. Ele é justificável e motivador: apresentaremos essa obra a Deus! Mesmo que ninguém jamais veja o que foi feito por você, ainda sim existe um espectador que não é você mesmo (e ele é muito maior e melhor que você mesmo!). Aí que reside o trunfo. Há quem diga que o artista é o maior juiz e o único público a quem realmente interessa satisfazer. Entretanto, isto não é ao todo verdade. Devemos ser juízes e apreciadores sim do que produzimos. Mas não somos os únicos. Existe alguém que é infinitamente maior que nós e que supera todas as nossas capacidades intelectuais. E esse alguém é Deus. 

Por fim, termino com este trecho de Francis Schaeffer: "Então, se dissessem a Davi: 'Por que você canta? Só para se divertir? Somente as ovelhas o ouvirão'. Davi responderia: 'De forma alguma. Eu canto e o Deus do céu e da terra ouve minha canção, e é isso o que lhe confere valor'". 

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